Mercado de Minério de Ferro Reage: Compras na China e Salto Histórico nas Importações da Índia

O Respiro nos Preços e a Estratégia Chinesa Os contratos futuros do minério de ferro finalmente ganharam fôlego, interrompendo uma sequência incômoda de seis dias de quedas no mercado asiático. Esse movimento de recuperação, registrado nesta sexta-feira, reflete uma janela de oportunidade vista pelas siderúrgicas. Com os preços de matérias-primas essenciais operando em patamares consistentemente baixos — a exemplo do carvão metalúrgico e do coque —, a pressão sobre o custo de produção diminuiu bastante. Isso abriu espaço para que as usinas fossem às compras e reforçassem seus estoques antes da pausa para o feriado do Ano Novo Lunar chinês. O contrato para maio, referência na Bolsa de Mercadorias de Dalian (DCE), fechou o dia com um avanço de 1,21%, cotado a 795 iuanes (cerca de US$ 114,16) por tonelada. Apesar da reação diária, o saldo da semana ainda apontou um recuo de 2,82%.

Perspectivas para a Produção e Infraestrutura Traders que acompanham o setor de perto relatam que as margens de lucro do aço seguem num patamar aceitável, viabilizadas justamente pelo barateamento dos insumos. A dinâmica atual do mercado aponta para um provável aumento na produção de metais quentes e espaço para expansão dos estoques das usinas. O ritmo de operação, no entanto, não será uniforme em todo o país. Algumas siderúrgicas de processo curto localizadas nas regiões de Guangxi e Guangdong já planejam suspender as atividades no final de janeiro, com previsão de retorno apenas para março. Olhando para o cenário macroeconômico da China, a crise no setor imobiliário deve continuar pesando na balança. A sustentação da demanda por aço em 2026 virá dos investimentos em infraestrutura de ativos fixos e de projetos ligados à energia, que tendem a ganhar tração com o alívio nas pressões de financiamento.

O Apetite Indiano por Minério de Alta Qualidade Enquanto a China ajusta seus estoques, a Índia desponta como uma força compradora impressionante. O país asiático caminha para registrar o maior volume de importação de minério de ferro dos últimos sete anos neste ano fiscal, que termina em 31 de março. Analistas projetam que as compras externas vão mais do que dobrar em relação ao ciclo anterior, atingindo algo entre 12 milhões e 14 milhões de toneladas métricas no período de 2025-2026. Esse apetite voraz é motivado principalmente pela escassez interna de minério de alta qualidade e pela forte demanda da JSW Steel. Maior fabricante de aço da Índia em capacidade, a companhia tem direcionado grandes volumes de matéria-prima importada para abastecer seus complexos industriais nos estados de Maharashtra e Karnataka.

Rotas Comerciais e o Paradoxo da Produção Interna O mapa logístico dessas importações mostra que o Brasil e Omã são os grandes fornecedores da Índia no momento, respondendo por aproximadamente 70% dos embarques totais. Até mesmo um carregamento de Jimblebar Fines da australiana BHP, produto que estava com as vendas banidas na China, está a caminho dos portos indianos devido a descontos altamente atrativos. O mais curioso é que a Índia é a segunda maior produtora mundial de aço bruto e deve ver sua extração de minério de ferro bater a marca de 305 milhões de toneladas no período, superando os 289 milhões do ano anterior. O país exporta volumes imensos. A projeção aponta para 29 milhões de toneladas enviadas ao exterior, um salto de 26%. O detalhe é que se trata quase que totalmente de minério de baixa qualidade, um tipo que as próprias siderúrgicas indianas não costumam utilizar, e impressionantes 85% desse volume têm a China como destino final.

Tensão Geopolítica e o Mercado de Pelotas Para o próximo ano fiscal, que se inicia em 1º de abril, a expectativa do mercado é que a produção interna indiana continue subindo à medida que as minas intensifiquem suas operações. Mesmo assim, o país não deve abandonar as compras externas, que ficarão condicionadas à necessidade de minérios de graus específicos para as fábricas. Um ponto crítico de mudança está no mercado de pelotas de minério de ferro. A Índia vinha adquirindo esses produtos processados do Irã a preços mais acessíveis desde o ano passado, mas o agravamento dos conflitos e das tensões no Oriente Médio trouxe muita incerteza comercial para a rota. Diante desse cenário geopolítico conturbado, espera-se uma queda drástica nas importações iranianas. O impacto nas siderúrgicas, porém, deve ser mínimo, já que o mercado interno da Índia hoje possui uma oferta de pelotas robusta o suficiente para atender à demanda das usinas.