O conglomerado industrial CSN vive dias agitados sob os holofotes do mercado financeiro. A empresa corre contra o relógio para tirar do papel um robusto plano de desinvestimentos, com a meta de levantar aproximadamente R$ 18 bilhões (cerca de US$ 3,5 bilhões) para aliviar seu pesado endividamento. O que no papel parecia uma rota direta para fazer caixa, na realidade tem se transformado em um complexo jogo de xadrez, envolvendo cobranças de reguladores, atritos no setor bancário e alertas de agências de risco.
A lupa da CVM e a posição oficial da companhia Com o aumento do burburinho no mercado, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) interveio para questionar a companhia sobre reportagens que cravavam a venda de ativos importantes e até uma suposta saída total do negócio de siderurgia. A CSN precisou ser categórica na resposta. A direção negou a existência de tratativas concretas, compradores definidos ou mesmo negociações em estágio avançado, reforçando que qualquer percentual de venda divulgado no momento é pura especulação.
Toda a movimentação, segundo a empresa, é sustentada por um fato relevante publicado em 15 de janeiro de 2026. Na ocasião, o grupo apenas comunicou ter autorizado o início de estudos para uma alienação estruturada de ativos. Hoje, o foco da administração é avaliar a venda de fatias relevantes em infraestrutura, o possível controle da CSN Cimentos e alternativas estratégicas dentro da própria divisão de siderurgia para maximizar os resultados. A grande exceção desse pacote é a operação de minério de ferro. Manter o controle dessa área é considerado inegociável e vital para assegurar o fluxo de caixa da empresa a longo prazo.
Braço de ferro nos bastidores financeiros Apesar de ter um plano em mente, a urgência em reduzir a alavancagem vem criando atritos consideráveis. De acordo com informações reveladas pelo jornal O Globo, a CSN começou a exigir que os bancos interessados em assumir a coordenação da venda dos ativos também liberem novas linhas de crédito para a companhia. A estratégia gerou forte resistência na Faria Lima. Instituições de peso, como Santander e Morgan Stanley, não estariam dispostas a aceitar esse tipo de exigência atrelada ao mandato. O impasse atrasa a execução das vendas e, até agora, a frente de siderurgia segue sem sequer um assessor financeiro contratado.
Risco em alta e o impacto na mesa de negociações A percepção externa sobre a saúde financeira do grupo piorou nas últimas semanas. Em 20 de fevereiro, a agência Fitch Ratings cortou a nota de crédito da CSN de “BB-” para “B”, mantendo a perspectiva em observação negativa. O diagnóstico da agência apontou diretamente para a alavancagem líquida e bruta persistentemente alta da companhia, além do fluxo de caixa livre negativo e do elevado risco de refinanciamento em nível de holding. Na visão da Fitch, existe uma incerteza real sobre a capacidade da CSN de garantir financiamentos competitivos a tempo de amortizar o que deve.
Toda essa pressão cria um ambiente amplamente desfavorável para a CSN no exato momento em que ela precisa buscar investidores. Um executivo do setor de mineração e metais, ouvido sob anonimato, resumiu o sentimento do mercado corporativo sobre o caso. Ele explicou que a venda de ativos de valor tão elevado já limita naturalmente a lista de potenciais interessados. O agravante é que os possíveis compradores conhecem a fundo a urgência de caixa da CSN. Com essa informação na manga, a tendência é que o mercado force ao máximo os valores para baixo, transformando a definição do preço justo em uma negociação extremamente árdua para a companhia brasileira.